lunes, 8 de noviembre de 2010

Declaração da escritora indiana Arundhati Roy desde Srinagar - Caxemira

Tomado do jornal A Nova Democracía do Brasil

Declaração da escritora indiana Arundhati Roy desde Srinagar - Caxemira



Eu escrevo isto de Srinagar, na Caxemira. Jornais desta manhã dizem que eu posso ser presa sob a acusação de sedição por aquilo que tenho dito em recentes reuniões públicas sobre a Caxemira. Eu disse o que milhões de pessoas aqui dizem todos os dias. Eu disse o que eu, bem como outros comentaristas, têm escrito e dito por muitos anos. Qualquer pessoa que se preocupar em ler as transcrições de minhas palestras vai ver que eles foram, fundamentalmente, apelos à justiça. Falei sobre a justiça para o povo da Caxemira, que vive sob uma das mais brutais ocupações militares no mundo; sobre justiça para os Pandits Caxemira, que vivem a tragédia de terem sido expulsos de sua terra natal; para os soldados Dalit mortos na Caxemira, cujos corpos eu visitei em montes de lixo em suas aldeias em Cuddalore; justiça para os indianos pobres, que pagam o preço dessa ocupação em formas materiais e que agora estão aprendendo a viver no terror do Estado, que está se tornando um Estado policial.
Ontem, eu viajei para Shopian, cidade no sul da Caxemira, que no ano passado havia permanecido fechada durante 47 dias em protesto contra a brutal violação e assassinato de Asiya e Nilofer, as jovens mulheres cujos corpos foram encontrados em um riacho raso perto de suas casas e cujos assassinos ainda não foram julgados. Eu conheci Shakeel, marido de Nilofer e irmão de Asiya. Nós nos sentamos em um círculo de pessoas loucas de dor e raiva, que tinham perdido a esperança de que chegaria a 'insaf' -justiça - da Índia, e agora acreditavam que a Azadi -liberdade - era a sua única esperança. Eu conheci um jovem que pedras tinham sido disparadas nos seus olhos. Viajei com um jovem que me disse que três de seus amigos, adolescentes no distrito de Anantnag, tinham sido levados em custódia e tiveram suas unhas arrancadas como punição por terem atirado pedras.
Nos jornais alguns me acusaram de fazer "discursos de ódio”; de querer acabar com a Índia. Pelo contrário, o que eu digo vem de amor e orgulho. Isso vem de não querer que pessoas sejam mortas, violadas, presas ou tenham suas unhas arrancadas para forçá-los a dizer que são indianos. Isso vem de querer viver em uma sociedade que está se esforçando para ser uma só. Pena, a nação que tem que calar os seus escritores por falarem por suas próprias mentes. Pena a nação que tem enjaular os escritores que pedem justiça, enquanto assassinos comuns, assassinos em massa, fraudadores corporativos, saqueadores, estupradores, e aqueles que atacam os mais pobres dos pobres, vagueiam livremente.

Arundhati Roy
26 de outubro de 2010

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